APÓS QUEDA DO PIB, ESPECIALISTAS REFORÇAM NECESSIDADE DE INVESTIMENTOS EM INFRAESTRUTURA
A economia brasileira registrou queda histórica de 4,1% no produto interno bruto de 2020

A economia brasileira registrou queda histórica de 4,1% no produto interno bruto de 2020, segundo dados do IBGE divulgados na última quarta-feira (3). O resultado era, de certa forma, esperado diante dos impactos da pandemia do novo coronavírus no ano passado. No entanto, a avaliação de especialistas ouvidos pela Portos e Navios é que, mais do que nunca, o país precisa enxergar o setor de infraestrutura como fundamental para a recuperação do PIB nacional. A leitura é que os aportes em infraestrutura de transportes não chegam a 1% do PIB, abaixo do recomendável para a rota de crescimento econômico.

O diretor de estudos e políticas macroeconômicas do Ipea, José Ronaldo de Castro Souza Júnior, avalia que o resultado ocorreu dentro do que se esperava ao final de 2020, com investimentos impulsionados por alguns setores no último trimestre. Ele explicou que, numa primeira leitura, não é possível separar os números do PIB referentes à infraestrutura de transportes, pois eles incorporam outros segmentos. Ele disse, porém, que os investimentos em infraestrutura costumam ser muito baixos em qualquer comparação entre períodos.

Souza Júnior acredita que as reformas regulatórias devem ajudar a impulsionar investimentos privados, já que o setor público não demonstra condições de investir. Ele defende que seria importante continuar a trajetória e concluir o conjunto de reformas estruturantes para reduzir o risco macroeconômico e buscar o equilíbrio fiscal. “Contas públicas são um problema macro e atrapalham investimentos de longo prazo, como o setor de transportes, uma área que requer retorno em longo prazo”, analisou.

O diretor do Ipea acrescentou que a instabilidade do câmbio prejudica a previsibilidade de retorno do capital estrangeiro. Para Souza Júnior, atrair investidores privados passa por dar continuidade às reformas focadas em melhorar a segurança jurídica e o ambiente regulatório e macroeconômico. Segundo o diretor do Ipea, existe demanda para melhorar o ambiente em produtividade e capacidade. “Investimentos em infraestrutura podem ser as principais alavancas para retomada do crescimento”, projetou.

O professor Marcus Quintella, Diretor do FGV Transportes, também considera que a queda do PIB era prevista em razão das atividades paralisadas durante a pandemia, principalmente os setores de serviços e a indústria. Ele lembrou que foi um recuo bastante significativo, considerado o maior da série histórica que começou na década de 1990. Quintella ressaltou que o mercado ainda estuda quais serão as previsões para a economia em 2021.

Quintella salientou que o custo logístico do Brasil ainda é muito alto e que os investimentos totais em infraestrutura, historicamente, não chegam a 2% do PIB. Ele estima que a parcela do PIB em transportes não chegue a 1%. “É uma situação ruim para o Brasil em termos de investimentos. O país investe menos da metade do que seria necessário. As previsões de economistas falam em 2,5%, até 4%, do PIB em infraestrutura, mas não chega a 1%”, lamentou.

O diretor da FGV Transportes observa que os investimentos em transportes são predominantemente de origem privada. “Não se pode construir infraestrutura do país com investimentos privados. Deveria incluir fortemente investimentos públicos porque o privado só vai para situações específicas, com atratividade e possibilidade de retorno”, afirmou. Segundo Quintella, a infraestrutura de transportes é fundamental, pelo caráter estratégico de se integrar os corredores de escoamento das principais produções do país.

Ele enfatizou que o Custo Brasil ainda é fortemente impactado pelo custo logístico. Ele identifica que ainda existem muitos problemas de acesso aos principais portos do país. Além disso, Quintella entende que ainda existem incertezas quanto ao resultado das desestatizações e de políticas voltadas para o setor de navegação e multimodalidade. “Cada ano que passa, a análise que fazemos é a mesma: Não há qualquer investimento em infraestrutura que dê base para o crescimento econômico. Pode trazer indústria, montadora, siderúrgica (…). Não vai adiantar se houver custo logístico na casa de 13% — alguns dizem até 20% do PIB.

Para a Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan), o resultado já era esperado dada a fragilidade da economia brasileira devido à pandemia da Covid-19 e seus desdobramentos para a atividade econômica. A avaliação, porém, é que o crescimento de 3,2% observado no último trimestre revela que o Brasil segue uma trajetória de recuperação. A entidade defende que a aprovação das reformas é fundamental para o crescimento da economia em 2021.

A Firjan espera que a economia mantenha essa trajetória de recuperação e cresça 3,3% este ano. Além das reformas, a federação afirma que a recuperação depende da velocidade de imunização da população. “Sem reformas, que destravem o setor produtivo e tragam racionalidade para os gastos públicos, o país não conseguirá sustentar o crescimento econômico ao longo de 2021 e nos próximos anos”, manifestou a Firjan em nota.

Procurado, o Ministério da Infraestrutura não havia comentado os números do PIB para infraestrutura até o fechamento da reportagem.

Fonte: ABOL