COP26 cria o caminho para a economia verde

A COP26 entra para a história como um dos eventos climáticos de maior participação da sociedade civil, especialmente de movimentos sociais - jovens, ambientalistas, indígenas, mulheres e negros, amplificando o clamor por justiça climática.

Nos últimos dias, as atenções do mundo se voltaram para Glasgow, Escócia. Após duas semanas de negociações, a 26ª Conferência sobre Mudança do Clima da ONU, ou COP26, deixou um legado que deve pavimentar a estrada para evitar um aquecimento dramático do planeta, tanto em relação a acordos fechados quanto em protagonismo da sociedade. Mas esse caminho precisa agora de ações efetivas no curto prazo para que possamos limitar o aumento da temperatura global a no máximo 1,5ºC em relação à era pré-industrial, evitando danos severos às nossas vidas, ao planeta e aos negócios.

A COP26 entra para a história como um dos eventos climáticos de maior participação da sociedade civil, especialmente de movimentos sociais – jovens, ambientalistas, indígenas, mulheres e negros, amplificando o clamor por justiça climática.

A adesão das lideranças empresariais também foi a mais significativa das últimas conferências, com a presença maciça de CEOs de empresas de todos os portes, em um movimento mais intenso até do que acontece no Fórum Econômico Mundial, em Davos. O setor sempre esteve presente nas cúpulas do clima, mas a COP26 elevou essa participação a outro patamar: como voz ativa na pressão por uma economia verde e como parte efetiva nessa transformação, mostrando as contribuições que já estão sendo feitas para o enfrentamento da emergência climática.

Um exemplo: o Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (Cebds) levou à COP26 um posicionamento contundente, endossado por 119 CEOs e 14 entidades do setor privado, na defesa de uma transição rápida para a economia de baixo carbono. São representantes de segmentos tão diversos como agronegócio, alimentício, aviação, elétrico, farmacêutico, finanças, infraestrutura, logística, papel e celulose, petroquímico, saúde, tecnologia, telefonia e varejo. Somando-se apenas as companhias desse grupo que publicam resultados, temos um faturamento de R$ 1,1 trilhão em 2019.

Esse protagonismo empresarial rendeu frutos, já que o Brasil assumiu compromissos importantes nesta COP, tais como a antecipação da meta de neutralidade climática para 2050 e a assinatura de acordos como a Declaração de Florestas e o Acordo do Metano. A revisão da nossa meta, com o compromisso de reduzir em 50% as emissões de gases de efeito estufa até 2030 (ante 43% da proposta anterior) em relação aos níveis de 2005, é outro ponto positivo.

Vamos acompanhar de perto o desenrolar de todos esses objetivos: o como fazer, o caminho, as ações de curto e médio prazo, a colaboração entre setores econômicos para que se alcance as emissões líquidas zero são de suma importância nesse momento imediato pós-conferência.

A COP26 trouxe resultados que farão muita diferença no avanço das discussões climáticas nos próximos anos. O documento final da conferência traz, pela primeira vez, a sinalização da redução do uso de combustíveis fósseis, um marco na história dos compromissos climáticos, ainda que a linguagem tenha sido menos ambiciosa que o desejado – o texto evoca a “redução” do consumo desses combustíveis, em vez da “eliminação”. Outro passo importantíssimo foi a regulamentação do Artigo 6 do Acordo de Paris, que irá determinar as regras para o mercado global de carbono.

Esse mercado poderá trazer inúmeras oportunidades para o Brasil, que é um dos países com maior potencial de venda de créditos de carbono do mundo: podemos gerar até US$ 72 bilhões em receitas acumuladas até 2030 com projetos que retiram os gases do efeito-estufa da atmosfera. O país poderá escoar seus créditos florestais e agrícolas, valorizando grandes ativos naturais de nossa biodiversidade e a agricultura de baixo carbono, bem como engajar o setor privado num comércio global de emissões na sua trajetória de neutralização.

Ainda que a COP26 tenha ficado aquém do esperado em matérias mais controversas, tais como o mecanismo de perdas e danos às nações mais vulneráveis e a efetividade do financiamento climático (o texto final não estabeleceu uma cifra para que os países ricos repassem recursos para apoiar os mais pobres no combate ao aquecimento global), esses pontos poderão avançar na COP27, que será realizada em 2022, no Egito.

Outro ponto positivo foi a decisão dos países de anteciparem para o ano que vem a apresentação de compromissos mais ambiciosos para suas metas nacionais de corte de emissões, o que estaria previsto para daqui a cinco anos. Há, portanto, a clara sinalização de continuidade das discussões sobre ambição climática.

O desafio de dar celeridade à transição para a descarbonização das economias está posto. No Brasil, ele ecoa ainda com a urgência de uma recuperação econômica pós-pandemia baseada em nossas vantagens comparativas, como a rica biodiversidade e seus serviços ecossistêmicos e a geração de eletricidade de fontes renováveis majoritariamente.

Precisamos dar respostas enérgicas no combate ao desmatamento, que é nosso elefante na sala, respondendo por 44% das emissões brasileiras de gases de efeito-estufa. Nossas empresas sabem produzir e conservar ao mesmo tempo, e estão engajadas na meta carbono líquido zero até 2040, movimento que o Cebds também lidera no Brasil. Entendemos que a colaboração entre os diversos setores econômicos será fundamental para superar os gaps existentes e acelerar as oportunidades que o pós-COP26 traz.

Já a regulamentação do mercado global de carbono não pode se confundir com o mercado regulado que precisamos criar no Brasil. A ausência de um mercado regulado doméstico vai gerar prejuízos e perda de competitividade internacional para as empresas brasileiras, já que elas não conseguirão assegurar que produzem seguindo exigências de proteção climática adotadas no mercado mundial e poderão enfrentar barreiras comerciais climáticas.

Por isso, urge a regulamentação desse mercado doméstico. O Cebds é protagonista, desde 2017, da criação desse modelo, e suas empresas associadas contribuíram também para a proposta do projeto de lei que tem sido debatido no Congresso. O setor empresarial está preparado para participar dos mercados brasileiro e global de carbono e aproveitar as vantagens do país para gerar empregos e renda, além de financiar investimentos cada vez maiores na economia verde.

Construir pontes, diálogo e cooperação será nossa missão: estamos preparados para ajudar as empresas a alcançarem suas metas de neutralidade climática, as apoiando em desafios como a redução das emissões no chamado escopo 3, que envolve as cadeias de suprimentos das empresas, inclusive pequenas e médias empresas.

Ação e ambição foram os lemas da COP26, com destaque para a diminuição do uso de combustíveis fósseis, que pela primeira vez esteve no texto final da conferência. Esse binômio deve prevalecer na jornada de implementação dos compromissos e metas assumidos em Glasgow. Resta-nos fazer as lições de casa, e rápido.

Fonte: Valor Econômico